Construções orgânicas
Quando se faz referência ao universo da construção não é difícil estabelecer uma relação imediata quer com a disciplina da arquitectura quer com as técnicas desenvolvidas no campo da engenharia, aplicadas na edificação. Se estas referências ligadas à «casa» não são estranhas à obra de Marta Castelo, a verdade é que o seu campo de abordagem e investigação plástica não diz respeito aos métodos empregues no levantamento de habitação mas, à construção da dimensão metafísica da existência.
Coloca-se aqui o desafio a que Marta Castelo se entrega, já que ensaiar e pensar sobre a dimensão metafísica é, talvez, o mais difícil de todos os empreendimentos.
A dificuldade e o paradoxo – resultantes daquele desafio – prendem-se com a impossibilidade de fixar e materializar as dimensões sensíveis e «insensíveis» da existência. Como expõe o filósofo José Gil, no seu recente livro sobre o pensamento de G. Deleuze, uma parcela da experiência [metafísica] é, por natureza, «insensível». Quer dizer que, ela escapa à ordem dos sentidos imediatos e da percepção empírica e, portanto, é da ordem de uma construção que não pode senão ser flutuante. Ela existe justamente ali, onde a lógica não é regime e onde a diferença produz subjectivação.
Como pensar ou mencionar aquilo que escapa ao regime da lógica, às razões do intelecto ou, simplesmente, às relações intrínsecas que regem a matéria? Como «agarrar» qualquer coisa que parece situar-se justamente aí, nesse meio, invisível, incorpóreo e volúvel?
As edificações e os casulos orgânicos de Marta Castelo remetem-nos antes para um ensaio plástico e errante da possibilidade de habitar o mundo e o espaço. Os seus projectos de habitáculo não são determinados pelas relações rígidas que regem a casa, o corpo ou o próprio pensamento. Pelo contrário, eles parecem querer falar da sua própria organicidade, de um processo do devir, de uma metamorfose que lhes é imanente e da adaptação ao meio circundante.
Nos seus ensaios, a matéria trabalha por si própria dando lugar a uma transformação que tende para o equilíbrio natural; próprio ao universo do qual a autora extrai as matérias-primas com que executa os seus trabalhos. Não é, por isso, estranho, que sejam as próprias matérias a determinar o aspecto plástico e formal das peças, como se a matéria trabalhasse por si mesma e pudesse retroceder ao seu estado original. Como sugere a artista, em trabalhos onde explora encontros de «descoberta com os lugares», as matérias-primas a que recorre poderiam voltar aos lugares de origem sem atrito no ambiente circundante e, a terra diluir-se na terra, a pedra integrar-se na pedra, a madeira decompor-se ou transformar-se em papel. É na impossibilidade de dar corpo a esta dimensão fluida que se inscrevem também as peças de cimento - tentativas de imobilizar, preencher e materializar um espaço que é por natureza vazio. É o espaço «entre», de trânsito, que Marta Castelo deseja fixar. Trata-se, no fundo, da condição flutuante da existência e da dimensão ontológica. Essa dimensão é assinalada através da exposição de fotografias ou imagens referenciais que falam, justamente, de uma experiência que não pode ceder à matéria e da qual não resultam outros resíduos senão as imagens que comprovam o rasto da presença efémera da autora por aqueles lugares. Essa condição transitória é a mesma que se evoca nos receptáculos cheios ou vazios, com aberturas [janelas ou fissuras para o olhar] ou paredes vedadas mas sempre, sempre à espera de corpo: meu corpo, nosso corpo, corpo volátil.
Os próprios encaixes, positivos e negativos, que percorrem a escultura de Marta Castelo reforçam o sentido de equilíbrio ou harmonia presentes no universo. Note-se que a sua obra replica as várias relações de complemento, presentes nos elementos da natureza. Assim, o que tem forma corresponde a um fundo, o que tem um encaixe encontra o seu par, o que deriva de uma matéria parece poder retroceder ao seu estado original de fusão com o mundo. O que é expresso não é jamais um pólo ou um dos contrários, mas o que está no «meio», incessantemente a devir.
Por isso a sua obra é um ensaio sobre a construção de um lugar habitável. Não um lugar qualquer, comum ou permanente mas, um lugar diferenciável e, portanto, um lugar do Eu.
Este lugar singular e sempre em reelaboração é expresso pelas esculturas realizadas para a exposição da Galeria Municipal de Montemor-o-Novo, que estabelecem uma ligação específica com o espaço onde a autora tem trabalhado e residido durante diversos períodos do seu percurso. Não é de menos importância relevar que o trajecto artístico de Marta Castelo se vem afirmando no contexto de um projecto de investigação invulgar – de carácter aberto mas com premissas sólidas - centrado na arte contemporânea e com sede nas Oficinas do Convento; projecto este que a autora contribui decisivamente para consolidar mas, onde também determina, sem facilitismos, o seu próprio caminho.
A referência directa aos lugares da terra testemunha uma necessidade de ligação à origem e, portanto, um reencontro com uma âncora fundamental da existência: a experiência e a memória corporal.
Sara Antónia Matos
Dois mil e oito